
Ampliação das políticas públicas e revisão do direito penal
voltado para a criança e o adolescente. As questões foram abordadas no 'V Ciclo
de Debates Sobre Segurança Pública e Defesa Social', realizado hoje, dia 17, na
sede do Ministério Público no Centro Administrativo da Bahia. Organizado pelo
Centro de Apoio Operacional de Segurança Pública e Defesa Social (Ceosp) e pelo
Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf), o evento, que reuniu
procuradores e promotores de Justiça, juízes de Direito, defensores públicos,
professores, oficiais da Polícia Militar, delegados de Polícia Civil, advogados
e servidores do MP, promoveu uma maior articulação entre os órgãos responsáveis
pela segurança pública, através do debate e do intercâmbio de conhecimentos.

“O tema, sugerido em reunião do Comitê Interinstitucional
em Segurança Pública do Estado da Bahia (Cisp), que já trata do assunto em um
Grupo de Trabalho específico, também está inserido na Agenda Bahia e no Pacto
Pela Vida, dada a sua importância estratégica em termos de Segurança
Pública”, informou o promotor Geder Gomes, coordenador do Ceosp. Coordenadora do
Centro de Apoio da Criança e do Adolescente (Caoca), a promotora Eliana
Bloizi classificou a questão do adolescente em conflito com a lei como uma das
mais “aflitivas” na área da infância e da juventude. “A Bahia tem índices
assustadores de violência entre jovens. Precisamos pensar o que nos espera num
horizonte de vinte anos. Ainda há poucas políticas públicas e, se agirmos agora,
através de iniciativas como a de hoje, podemos construir uma realidade melhor
para os próximos 15 anos”, concluiu.
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A professora Karina Sposato, doutora em Direito Penal e
Consultora do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, falou
sobre 'Direito Penal no Brasil: Desafios e Perspectivas''. Ela afirmou que o
tema ainda é cercado por mitos e preconceitos no país. “Trabalha-se com o
adolescente numa perspectiva de irrecuperabilidade. O adolescente é visto como
alguém cada vez mais perigoso, que não seria devidamente punido e, por isso,
seria um problema sem solução”, resumiu Sposato, afirmando discordar dessa
visão. “Muitas vezes, o adolescente em conflito com a lei é, inclusive, punido
com mais rigor que o adulto que comete o mesmo crime que ele e tem, por exemplo,
acesso a uma liberdade provisória, direito que é negado ao adolescente”,
pontuou, salientando a importância de se instaurar no país um “direito penal
juvenil, em que o adolescente pague pelo que fez, naturalmente, mas seja mais
educado, a fim de conseguir se libertar do ciclo do crime antes de atingir a
idade adulta”, concluiu.

Apresentando seu ponto de vista, o juiz de Direito da Vara
da Infância e Juventude de Itabuna, Marcos Antônio Santos Bandeira, defendeu que
as medidas socioeducativas aplicadas com base no Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) “não podem ser confundidas com pena”. Ao tratar do tema 'O
Adolescente em Conflito com a Lei: Alguns Aspectos do Sistema Socioeducativo na
Bahia', o magistrado ressaltou o papel pedagógico das medidas impostas pelo ECA,
acrescentando que o estatuto trabalha sobre as bases de uma doutrina de proteção
integral. Mas há falhas, pontuou o juiz. “Muitos adolescentes ainda ficam
detidos em delegacias, até mesmo porque na Bahia só há unidades de internamento
para adolescente em Salvador e em Feira de Santana e elas estão sempre lotadas”,
destacou, frisando que, diante do quadro atual, mesmo após mais de 20 anos de
ECA, ainda é difícil avaliar a efetividade do estatuto, “vez que este nunca foi
integralmente cumprido”.

Encerrando o encontro, a diretora-geral da Fundação da
Criança e do Adolescente (Fundac), Ariselma Pereira, afirmou que, apesar dos
problemas, “a Bahia vive um bom momento no que toca a políticas públicas
voltadas para o adolescente infrator”. Na sua exposição sobre 'A Situação do
Atendimento Socioeducativo na Bahia', ela reconheceu os problemas apontados
pelos demais palestrantes, e buscou remontar às causas da violência entre os
jovens. “Há problemas sociais anteriores. Um dado triste, por exemplo, revela
que 60% de todos os nossos internos nunca tiveram qualquer contato com a
educação. Como cobrar algo de um jovem desses?”, questionou, destacando o papel
das políticas públicas que vêm sendo desenvolvidas no Brasil e na Bahia com base
na intersetorialidade, envolvendo segurança, assistência, saúde, moradia e
educação. “O quadro que se apresenta atualmente ainda é ruim, mas o momento é
positivo. Encontros como o de hoje mostram que os atores do sistema estão
integrados e que uma solução já se desenha para o adolescente em conflito com a
lei na Bahia”, concluiu.
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