O juiz Marcos Bandeira, titular da Vara da Infância e Juventude da Comarca de Itabuna presidiu o mutirão envolvendo 26 adolescentes acusados de ter praticado atos infracionais, de natureza leve e de médio potencial ofensivo na Comarca de Itabuna. As audiências contaram ainda com a presença do Promotor de Justiça, Patrick Pires, do Defensor Público Estadual Washington Luíz Pereira Andrade , advogados particulares e serventuários, além dos adolescente e seus pais ou responsáveis. As audiências que começaram por volta das 9hs e se encerraram por volta das 14hs foram marcadas pelo consenso das partes. Na primeira audiencia que o adolescente tem com o juiz, por ocasião de seu interrogatório, o Promotor de Justiça, com base no perfil do mesmo e na gravidade do ato infracional que lhe é imputado, oferece uma proposta de transação socioeducativa, como forma de suspensão do processo, na forma de remissão cumulada com uma medida socioeducativa em meio aberto. Se o adolescente e seu advogado aceitarem a proposta, o processo é suspenso e o jovem é encaminhado para o Centro de Execução de Medidas Socioeducativas Grapiúna Cidadão, a fim de cumprir a medida socioeducativa de liberdade assistida ou a prestãção de serviços à comunidade. Existe também a possibilidade de aplicação da remissão clausulada com danos genéricos, principalmente para aqueles atos infracionais, onde a vítima é a própria sociedade, como acontece nos casos de o adolescente de classe média ou alta dirigir veículos automotores sem habilitação. O adolescente devolve para a sociedade algo em forma de benefícios. Durante as audiencias foram aplicadas 08 medidas socioeducativas de liberdade assistida e três (3) de danos generícos. Oito adolescentes, embora intimados, não comparecerem a Vara da Infancia, sendo então expedido oito mandados de busca e apreensão, cujo cumprimento cabe à Polícia Judiciária. Seis adolescentes justificaram suas ausencias, sendo redesignadas as audiências, enquanto uma precatória foi expedida para a Comarca de São Paulo, com o fim de que um adolescente cumpra a medida socioeducativa de liberdade assistida na referida capital. Os valores obtidos através da transação socioeducativa dos danos genéricos forma revertidos para a compra de utensílios da Casa de Passagem de Itabuna, que abriga adolescentes a partir de 12 anos de idade, em situação de vulnerabilidade. O juiz Marcos Bandeira afirmou que " a metodologia empregada na transação socioeducativa contribui para a celeridade dos processos, pois o fluxo de processos envolvendo adoleslcentes em conflito com a lei cresceu muito, e instrução dos processos fica reservada para os atos infracionais graves, praticados com violencia ou grave ameaça à pessoa", finalizou.
fonte: Gabinete do Juiz da Vara da Infância e Juventude da Comarca de Itabuna-BA
Ampliação das políticas públicas e revisão do direito penal
voltado para a criança e o adolescente. As questões foram abordadas no 'V Ciclo
de Debates Sobre Segurança Pública e Defesa Social', realizado hoje, dia 17, na
sede do Ministério Público no Centro Administrativo da Bahia. Organizado pelo
Centro de Apoio Operacional de Segurança Pública e Defesa Social (Ceosp) e pelo
Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf), o evento, que reuniu
procuradores e promotores de Justiça, juízes de Direito, defensores públicos,
professores, oficiais da Polícia Militar, delegados de Polícia Civil, advogados
e servidores do MP, promoveu uma maior articulação entre os órgãos responsáveis
pela segurança pública, através do debate e do intercâmbio de conhecimentos.
“O tema, sugerido em reunião do Comitê Interinstitucional
em Segurança Pública do Estado da Bahia (Cisp), que já trata do assunto em um
Grupo de Trabalho específico, também está inserido na Agenda Bahia e no Pacto
Pela Vida, dada a sua importância estratégica em termos de Segurança
Pública”, informou o promotor Geder Gomes, coordenador do Ceosp. Coordenadora do
Centro de Apoio da Criança e do Adolescente (Caoca), a promotora Eliana
Bloizi classificou a questão do adolescente em conflito com a lei como uma das
mais “aflitivas” na área da infância e da juventude. “A Bahia tem índices
assustadores de violência entre jovens. Precisamos pensar o que nos espera num
horizonte de vinte anos. Ainda há poucas políticas públicas e, se agirmos agora,
através de iniciativas como a de hoje, podemos construir uma realidade melhor
para os próximos 15 anos”, concluiu.
A professora Karina Sposato, doutora em Direito Penal e
Consultora do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) no Brasil, falou
sobre 'Direito Penal no Brasil: Desafios e Perspectivas''. Ela afirmou que o
tema ainda é cercado por mitos e preconceitos no país. “Trabalha-se com o
adolescente numa perspectiva de irrecuperabilidade. O adolescente é visto como
alguém cada vez mais perigoso, que não seria devidamente punido e, por isso,
seria um problema sem solução”, resumiu Sposato, afirmando discordar dessa
visão. “Muitas vezes, o adolescente em conflito com a lei é, inclusive, punido
com mais rigor que o adulto que comete o mesmo crime que ele e tem, por exemplo,
acesso a uma liberdade provisória, direito que é negado ao adolescente”,
pontuou, salientando a importância de se instaurar no país um “direito penal
juvenil, em que o adolescente pague pelo que fez, naturalmente, mas seja mais
educado, a fim de conseguir se libertar do ciclo do crime antes de atingir a
idade adulta”, concluiu.
Apresentando seu ponto de vista, o juiz de Direito da Vara
da Infância e Juventude de Itabuna, Marcos Antônio Santos Bandeira, defendeu que
as medidas socioeducativas aplicadas com base no Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) “não podem ser confundidas com pena”. Ao tratar do tema 'O
Adolescente em Conflito com a Lei: Alguns Aspectos do Sistema Socioeducativo na
Bahia', o magistrado ressaltou o papel pedagógico das medidas impostas pelo ECA,
acrescentando que o estatuto trabalha sobre as bases de uma doutrina de proteção
integral. Mas há falhas, pontuou o juiz. “Muitos adolescentes ainda ficam
detidos em delegacias, até mesmo porque na Bahia só há unidades de internamento
para adolescente em Salvador e em Feira de Santana e elas estão sempre lotadas”,
destacou, frisando que, diante do quadro atual, mesmo após mais de 20 anos de
ECA, ainda é difícil avaliar a efetividade do estatuto, “vez que este nunca foi
integralmente cumprido”.
Encerrando o encontro, a diretora-geral da Fundação da
Criança e do Adolescente (Fundac), Ariselma Pereira, afirmou que, apesar dos
problemas, “a Bahia vive um bom momento no que toca a políticas públicas
voltadas para o adolescente infrator”. Na sua exposição sobre 'A Situação do
Atendimento Socioeducativo na Bahia', ela reconheceu os problemas apontados
pelos demais palestrantes, e buscou remontar às causas da violência entre os
jovens. “Há problemas sociais anteriores. Um dado triste, por exemplo, revela
que 60% de todos os nossos internos nunca tiveram qualquer contato com a
educação. Como cobrar algo de um jovem desses?”, questionou, destacando o papel
das políticas públicas que vêm sendo desenvolvidas no Brasil e na Bahia com base
na intersetorialidade, envolvendo segurança, assistência, saúde, moradia e
educação. “O quadro que se apresenta atualmente ainda é ruim, mas o momento é
positivo. Encontros como o de hoje mostram que os atores do sistema estão
integrados e que uma solução já se desenha para o adolescente em conflito com a
lei na Bahia”, concluiu.
